Notícia

30 de Novembro, 2018

Papa destaca que a piedade popular é o sistema imunitário da Igreja

Francisco, em audiência nesta quinta-feira (29), reforçou que o santuário é o lugar privilegiado para experimentar a misericórdia

O Papa Francisco recebeu em audiência, nesta quinta-feira, 29, na Sala Regia, no Vaticano, cerca de seiscentos participantes do encontro internacional de Reitores e Colaboradores de Santuários. O Pontífice esperava esse momento para encontrar os representantes de vários santuários espalhados pelo mundo.

Ao iniciar o seu discurso, Francisco disse que o quanto as pessoas precisam dos santuários no caminho cotidiano da Igreja! “São lugares em que o nosso povo vai com boa vontade a fim de manifestar sua fé na simplicidade e segundo as tradições que aprenderam desde a infância. De várias formas, os nossos santuários são insubstituíveis, pois mantêm viva a piedade popular, enriquecendo-a com uma formação catequética que sustenta e reforça a fé e alimentando, ao mesmo tempo, o testemunho da caridade”, relatou.

O Santo Padre ainda disse que é muito importante manter viva a piedade popular e não esquecer aquele tesouro que é o número 48 da Evangelii Nuntiandi, em que São Paulo VI mudou o nome de “religiosidade popular” para “piedade popular”. “É um tesouro! Essa é a inspiração dessa piedade popular que, por outro lado, como disse um bispo italiano: A piedade popular é o sistema imunitário da Igreja. Nos salva de muitas coisas”, frisou o Papa.

Acolhimento dos peregrinos

O Pontífice destacou a importância do acolhimento dos peregrinos. “Sabemos que cada vez mais os nossos santuários são meta não de grupos organizados, mas de peregrinos individuais ou pequenos grupos autônomos que vão a esses lugares santos. É triste que em sua chegada eles não encontrem ninguém para dar-lhes as boas-vindas e que os acolha como peregrinos que fizeram uma viagem, muitas vezes longa, para chegar ao santuário. Pior ainda quando encontram a porta fechada!”, abordou Francisco.

Segundo o Papa, não é possível dar mais atenção às exigências materiais e financeiras, “esquecendo que a realidade mais importante são os peregrinos. Ele afirmou que eles são os que contam. Francisco disse ainda que todos devem dar atenção a cada um deles, fazendo com que se sintam ‘em casa’, como um parente esperado por muito tempo que finalmente chegou.

Durante a audiência, Francisco destacou que é preciso considerar também que muitas pessoas visitam os santuários porque pertencem à tradição local. Ele explicou o motivo pelo qual suas obras de arte atraem ou porque estão situados num ambiente natural de grande beleza e inspiração. “Essas pessoas, quando são acolhidas, são mais disponíveis a abrir o seu coração e a deixá-lo plasmar pela Graça. Um clima de amizade é uma semente fecunda que os nossos santuários podem semear no terreno dos peregrinos, permitindo-lhes reencontrar aquela confiança na Igreja que pode ter sido desiludida pela indiferença recebida”, esclareceu.

Santuário, lugar de oração

Para o Papa, “o Santuário é sobretudo lugar de oração”. Segundo o Pontífice, a maioria dos santuários é dedicada à piedade mariana. “Ali, a Virgem Maria abre os braços de seu amor materno para ouvir a oração de cada um e atendê-las. Os sentimentos que todo peregrino sente no fundo do coração são encontrados também na Mãe de Deus. Ali, ela sorri dando consolo. Ali, Ela chora com quem chora. Ali, apresenta a cada um o Filho de Deus em seus braços como o tesouro mais precioso que uma mãe possui. Ali, Maria se faz companheira de caminhada de cada pessoa que olha para ela pedindo uma graça, certa de ser atendida. A Virgem responde a todos com a intensidade de seu olhar que os artistas souberam pintar, guiados do alto na contemplação”, enfatizou.

O Santo Padre sublinhou duas exigências a propósito da oração. Ele disse que a primeira é de favorecer a ‘oração da Igreja’ que com a celebração dos Sacramentos torna presente e eficaz a salvação. Francisco afirmou também que isso permite a qualquer pessoa que esteja presente no santuário de sentir-se parte de uma comunidade maior que de todo canto da terra professa a única fé, testemunha o seu amor e vive a mesma esperança. Em seguida, ele explicou que muitos santuários surgiram através do pedido de oração feito pela Virgem aos videntes, a fim de que a Igreja não se esquecesse nunca das palavras do Senhor Jesus de rezar sem cessar e permanecer sempre vigilante na espera de seu retorno.

Alimentar a oração do peregrino

Segundo o Pontífice, os santuários são chamados a alimentar a oração de cada peregrino no silêncio de seu coração. Ele frisou que ninguém nos santuários deve se sentir um estranho, especialmente quando chega ali ‘com o peso de seu próprio pecado’. “Com as palavras do coração, com o silêncio, com suas fórmulas aprendidas na infância, com os seus gestos de piedade, cada um deve ser ajudado a expressar sua oração pessoal. Muitas pessoas vão ao santuário porque precisam receber uma graça e depois voltam para agradecer, por ter recebido a força e a paz na provação. Essa oração torna os santuários lugares fecundos, para que a piedade popular seja sempre alimentada e cresça no conhecimento do amor de Deus”, relatou.

Misericórdia

Francisco fez uma observação dizendo que o santuário é o lugar privilegiado para experimentar a misericórdia que não conhece confim. Ele explicou que esse é um dos motivos que o impulsionou a desejar a ‘Porta da misericórdia’ também nos santuários durante o Jubileu da Misericórdia. O Papa afirmou que, de fato, a misericórdia, quando é vivida, torna-se uma forma de evangelização real, porque transforma as pessoas que recebem a misericórdia em testemunhas de misericórdia.

O Pontífice explicou que, primeiramente, o Sacramento da Reconciliação, que muitas vezes é feito nos santuários, precisa de sacerdotes bem formados, santos, misericordiosos e capazes de saborear o encontro verdadeiro com o Senhor que perdoa. “Desejo que nunca falte nos Santuários a figura do ‘Missionário da Misericórdia’ como testemunha fiel do amor do Pai que abre os braços a todos e vai ao encontro feliz por ter reencontrado quem se distanciou. As ‘obras de misericórdia’ pedem para ser vividas de modo particular em nossos santuários, pois nelas a generosidade e a caridade são realizadas de forma natural e espontânea como atos de obediência e amor ao Senhor Jesus e à Virgem Maria”, disse.

O Papa pediu a Nossa Senhora para que ajude e acompanhe os Reitores e Colaboradores de Santuários nessa grande responsabilidade pastoral que lhes foi confiada. “Por favor, não se esqueçam de rezar e fazer com que rezem por mim em seus santuários”, declarou.

Papa conta fato vivido por ele

Antes de concluir, Francisco contou um fato vivido por ele. “O Santuário é um lugar de encontro não somente com o peregrino, com Deus, mas também do encontro de nós pastores com o nosso povo. A Liturgia de 2 de fevereiro nos diz que o Senhor vai ao Santuário para encontrar o seu povo, para sair ao encontro de seu povo, entender o povo de Deus, sem preconceitos, com o faro da fé, com a infallibilitas in credendoda qual fala o número doze da Lumen gentium”, apontou.

Segundo o Papa, “este encontro é fundamental”. Ele disse que se o pastor que está no santuário não consegue encontrar o povo de Deus, é melhor que o bispo dê a ele outra missão, pois não é adapto para isso. Francisco explicou que este pastor sofrerá muito e fará o povo sofrer. “Lembro-me de um brilhante professor de literatura. Foi a vida inteira jesuíta. A vida inteira ensinou literatura, mas de alto nível. Depois, aposentou-se e disse ao provincial: Aposento-me e gostaria de fazer algo de pastoral num bairro pobre, ter contato com o povo, com as pessoas. O provincial lhe confiou um bairro de pessoas piedosas, que iam aos santuários, que tinham essa mística, mas muito pobre, uma favela, mais ou menos. Ele ia à comunidade da Faculdade de Teologia uma vez por semana, onde eu era reitor. Ele passava o dia todo conosco, em fraternidade, depois voltava. Assim, mantinha a vida comunitária. Como era uma pessoa brilhante, um dia me disse: Você deve dizer ao professor de eclesiologia que lhe faltam dois temas. Como assim? Sim, dois temas que ele deve ensinar. Quais são? Primeiro: o povo santo fiel de Deus é ontologicamente olímpico, ou seja, faz o que quer, e metafisicamente cansativo. Entendeu, no encontro, como o povo de Deus cansa, porque cansa. Se você está em contato com o povo de Deus, você se cansará. Uma agente pastoral que não se cansa, eu pensaria duas vezes! O olímpico faz o que quer: Lembro-me de quando era professor dos noviços ia todos os anos, e depois como provincial com os noviços, ao Santuário de Salta, no norte da Argentina, nas festas do Senhor dos Milagres. Saindo da missa, uma senhora do povo aproximou-se de um sacerdote com alguns santinhos e lhe disse: Padre, os abençoe? E o sacerdote, um teólogo muito bom, disse-lhe: A senhora foi à missa? “Sim”. A senhora sabe que na missa há o sacrifício do calvário, Jesus Cristo está presente? “Sim, padre, sim”. E a senhora sabe que tudo o que está ali foi abençoado? “Sim, padre”. A senhora sabe que a bênção final abençoa tudo? “Sim, padre”. Naquele momento estava saindo outro sacerdote que conhecia tudo isso, tocou o padre, virou-se para saudá-lo e a senhora lhe disse: “Padre, abençoa esse santinho?” Olímpico! Queria tocar. Este é o sentido mais religioso do contato. As pessoas tocam as imagens. Tocam em Deus. Obrigado pelo que fazem”, concluiu Francisco.


Fonte: Amex, com Vatican News